Texto gentilmente cedido por nosso querido amigo Edson de Faria Francisco.

1. Introdução

 cientistas se dedicaram a vasculhar a região do mar Morto, no deserto da Judeia, a procura de mais manuscritos. Em várias cavernas foram encontrados inúmeros documentos nas localidades de Hirbet Qumran, Wadi Murabba‘at, Nahal Hever, Massada, Nahal Se’elim, Nahal Arugot e Wadi Sdeir. A localidade mais importante e a mais conhecida dessas é a de Hirbet Qumran (também conhecida, simplesmente, como Qumran), em que grande número de textos bíblicos e não bíblicos foi descoberto em suas 11 cavernas.Os textos encontrados nos vários sítios arqueológicos mencionados são datados, geralmente, do período entre a metade do século III a.C. e o início do século II d.C. {2} 

          As descobertas em Qumran deram grande impulso ao campo da crítica bíblica e, principalmente, à área da crítica textual e literária, que muito se beneficiou desse rico acervo de manuscritos em hebraico, aramaico e grego.

Esses manuscritos revelam pluralidade de tipos textuais da Bíblia Hebraica  existentes no período do Segundo Templo (c. séc. VI a.C.-séc. I d.C.) e que são representados no corpus de Qumran: 1. textos como - Massorético {3}  (textos que refletem o Texto Protomassorético); 2. textos próximos à presumida Vorlage {4}  hebraica da Septuaginta {5}  (textos que re-fletem uma possível fonte hebraica da antiga versão grega); 3. textos Pré-Samaritanos {6}  (textos que refletem a versão hebraica samaritana) e 4. textos não alinhados (um agrupamento de textos que não são alinhados aos textos de tipo massorético, de tipo samaritano oude tipo septuagintal). {7}  Outra relevante contribuição dos textos é em relação ao entendimento sobre o processo de preservação e de transmissão do texto bíblico, como um todo, entre a metade do século III a.C. e o início do século IId.C., como a variedade textual refletida nos quatro grupos, os aspectos técnicos de cópia de textos 

bíblicos e a sua transmissão e a confiabilidade da reconstrução da Vorlage das antigas versões, especialmente da Septuaginta. {8}
          No período de nove anos, de 1947 a 1956, os arqueólogos encontraram vários manuscritos de todos os livros da Bíblia Hebraica, exceto o do livro de Ester no sítio arqueológico de Qumran. 
{9}  Muitos dos documentos achados ali já foram estudados por especialistas internacionais e publicados em edições acadêmicas. Peritos de várias nacionalidades escre-veram a respeito do assunto em livros e em revistas especializadas em temas históricos, arqueológicos e bíblicos e eles muito contribuíram para a divulgação dessas descobertas. {10}  Pode-se mencionar alguns dos nomes que se dedicaram a este assunto, principalmente, aqueles da primeira geração: Eleazar L. Sukenik, Harold H. Rowley, William F. Albright, Roland G. de Vaux, André Dupont Sommer, Yigael Yadin, Naḥman Avigad, Józef T. Milik e Géza Vermès. {11} 

         A quantidade de manuscritos descobertos em Qumran é muito grande. Segundo Tov, nas 11 cavernas de Qumran foram encontrados 930 manuscritos de textos bíblicos e não bíblicos, dos quais entre 210 e 212 são de livros da Bíblia Hebraica. {12}  Além dos achados arqueológicos realizados em Qumran, outros 25 manuscritos de textos bíblicos foram descobertos em outros sítios do deserto da Judeia, como em Wadi Murabba‘at, em Nahal Hever, em Massada e em outras localidades. {13} 

          Alguns dos textos não bíblicos, que foram localizados nas 11 ca-vernas de Qumran, são os seguintes: Gênesis Apócrifo (1QGnAp), Do-cumento de Damasco (CD), Manual da Disciplina ou Regra da Comuni-dade (1QS), Regra da Guerra (1QM), Hinos de Ação de Graças (hebr. hodayôt) (1QH), Manuscrito do Templo (11QT), Rolo de Cobre (3Q15), entre outros. Entre os documentos contendo comentários a livros bíblicos (hebr. pesher, explicação, interpretação) {14}  e traduções aramaicas  (targum), {15}  os  seguintes  são  alguns  dos  mais  relevantes:  {16} 

pesher de Habacuque (1QpHc), pesher de Miqueias (1QpMq), pesher de Naum (4QpNa), pesher do Salmo 37 (4QpSl 37), Targum de Jó (11QtgJó) e Targum de Leví-tico (4QtgLv).

          No presente artigo, será abordada, especificamente, a descoberta de manuscritos efetuada em Qumran, por se tratar do sítio arqueológico mais importante dentre os demais sítios do deserto da Judeia.

2. Localidade

          Entre o inverno e a primavera de 1947, Jum‘aMuhammed e Mu-hammed Ahmed el-Hammed, dois beduínos árabes da tribo Ta‘amireh, {17}  teriam encontrado acidentalmente na região de Hirbet {18}  Qumran, a 12 km ao sul de Jericó, na região noroeste do mar Morto, uma caverna contendo pergaminhos bíblicos e não bíblicos muito antigos, entre os quais um rolo completo e outro em estado fragmentário do livro de Isaías, um comentário ao livro de Habacuque e um texto sobre regras de uma determinada comunidade religiosa judaica. Mais tarde, os estudiosos identificaram tais achados como o manuscrito completo de Isaías (1QIsa), o manuscrito fragmentário de Isaías (1QIsb), o pesher de Habacuque (1QpHc) e a Regra da Comunidade (1QS). Posteriormente, o primeiro manuscrito de Isaías, entre outros, foi adquirido pelo Mosteiro Ortodoxo Sírio de São Marcos, em Jerusalém cujo patriarca, mar Athanasius Yeshue Samuel, se interessou em levá-lo para a American Schoolsof Oriental Research de Jerusalém para submetê-lo a peritos. {19}  Os estudiosos dataram o manuscrito 1QIsa de cerca de 150 a 100 a.C. Este mesmo documento pode ser datado entre 250 e 103 a.C., segundo o teste do carbono-14, mas de acordo com os estudos da paleografia, o mesmo é datado de 125 a 100 a.C.O manuscrito 1QIsb  é mais recente, tendo surgido entre 100 e 75 a.C. {20}  

          Outro lote de manuscritos encontrado em Qumran foi adquirido por Eleazar L. Sukenik, da Universidade Hebraica de Jerusalém, que depois de muito estudar essa descoberta, chegou às mesmas conclusões a que chegaram os peritos americanos: os manuscritos eram muito antigos e, provavelmente, pertenciam ao período do Segundo Templo. Em consequência dessas evidências, beduínos e estudiosos lançaram-se à procura de mais documentos na região de Qumran e, no período entre 1952 e 1956, foram localizadas mais 10 cavernas, nas quais foram encontrados centenas deles. Segundo a estimativa de alguns estudiosos, o total de textos localizados chega a 930. A totalidade de documentos contendo textos com conteúdo bíblico localizados em Qumran varia entre 210 e 212. {21} 

          Até hoje, há divergências em torno da identidade da comunidade de Qumran. Segundo alguns, esse grupo poderia ser identificado com os essênios, um dos vários ramos do judaísmo do período entre o século II a.C. e o século I d.C., ao lado dos fariseus, dos saduceus e dos zelotes. Escritores antigos como Fílon de Alexandria (25 a.C.-40 d.C.), Flávio Josefo (37/38-100

comunidade de Qumran com os essênios continua em aberto até o presente momento. {22} 

       Atualmente, os manuscritos encontrados no sítio arqueológico de Qumran estão guardados no Santuário do Livro, também conhecido como Heikhal ha-Sefer (hebr. Templo do Livro), uma ala do Museu de Israel, em Jerusalém, Israel. {23}   Todos os textos encontrados nas 11 cavernas de Qumran foram publicados de 1955 a 2009 na série Discoveries in the Judean Desert (DJD), editada pela Oxford University Press. {24}  Além da referida série, parte dos textos foi publicada por estudiosos por outras editoras de 1950 a 2010.

d.C.), Plínio, o Velho (23-79 d.C.) e as próprias informações de Qumran, relatam a existência de tal grupamento no mundo judaico de tal época, mas não há consenso entre os especialistas sobre as informações fornecidas por eles. A identificação da

3. Características da Descoberta

      O valor das descobertas em Qumran é imenso, pois permite perceber como era o estado de transmissão dos textos bíblicos em um período anterior e também posterior à era cristã. Os manuscritos encontrados nas 11 cavernas são datados do século III a.C. ao século I d.C., aproximadamente. O terminus a quo (ponto que determina o início de uma ação) é 250 a.C. e o terminus ad quem (ponto que determina o final de uma ação) é 68 d.C. {25}  Os manuscritos de Qumran atestam pluralidade de tipos textuais da Bíblia Hebraica e foram encontrados textos divergentes dos livros de Samuel (4QSm a, 4QSmb, 4QSmc) e de Jeremias (4QJr b, 4QJr d), que são mais relacionados com o texto da Septuaginta do que com o texto do Texto Massorético. Outros manuscritos comprovam também o tipo de texto que posteriormente daria origem ao Pentateuco Samaritano (4QpaleoÊx m , 4QÊx-Lv d , 4QNm b). {26} 

      Os manuscritos bíblicos mais antigos são aqueles que surgiram ao longo do século III a.C., sendo achados na caverna 4: o 4QÊx f , o 4QSm b , o 4QJr a e o 4QEc a . Alguns documentos datados do século II a.C., como os dois do livro de Daniel, o 4QDn c e o 4QDn e , que são datados entre 125 e 100 a.C., se afastam do livro original em apenas 60 anos. {27}  

     O tipo textual do Texto Massorético, isto é, o Texto Protomassorético ou textos como-Massorético, também é contemplado pelocorpus de Qumran como, por exemplo, o 1QIs b , entre outros, sendo este um dos mais representativos. O nível de concordância textual desse rolo em relação ao Texto Massorético é perceptível, o que comprova a antiguidade do tipo pertencente ao preservado pelos escribas judeus no período talmúdico e, mais tarde, pelos massoretas na época medieval. Além de 1QIs b, manuscritos como o 4QJr a, entre outros documentos, também refletem o tipo de texto que posteriormente daria origem ao Texto Massorético. {28}  

      Possivelmente, a comunidade de Qumran tinha mais a preço por determinados livros bíblicos, por serem mais populares entre os adeptos do grupo. Esses textos são representados por muitas cópias encontradas neste sítio arqueológico (cf. tabela abaixo). A quantidade de manuscritos de textos bíblicos compostos, tanto na escrita quadrática  {29} quanto na escrita paleohebraica 30  , sendo encontrados nas 11 cavernas, é a seguinte: {31} 

      Em Qumran, foram encontrados, igualmente, livros deuterocanônicos (Eclesiástico [2QEclo], Tobias [4QTbb ar] e Epístola de Jeremias [7QEpJr gr]), pseudepígrafos (Livro dos Jubileus [4QJub a] e o Testamento dos Doze Patriarcas[4QLevi ar]), targuns (de Jó [11QtgJó] e de Levítico [4QtgLv]) e um grande número de escritos produzidos pela própria comunidade qumraniana como o Gênesis Apócrifo (1QGnAp), a Regra da Comunidade (1QS), o Rolo do Templo (11QT), a Regra da Guerra (1QM), o Documento de Damasco (CD), os Hinos de Ação de Graças (1QH), o Rolo de Cobre (3Q15), o pesher de Habacuque (1QpHc), o peher de Naum (4QpNa), entre outros textos. Além de tal material literário, foram encontradas na caverna 4 cinco obras que apresentam edições exegéticas do texto do Pentateuco, tendo como base textos como-Massorético e textos como-Samaritano, sendo denominadas Pentateuco Reelaborado (4QPR a , 4QPR b , 4QPRc, 4QPR d e 4QPR e). {32}  Segundo os especialistas, somente na caverna 4 foram localizados cerca de 380 docu-mentos, vários dos quais em estado muito fragmentário. Além de textos bíblicos em hebraico, também foram achados manuscritos em aramaico e manuscritos da Septuaginta nas cavernas 4 e 7, e nesta última, somente havia manuscritos em grego. Dentre todas as cavernas, as que forneceram materiais mais importantes foram as cavernas 1, 4 e 11{33} 

a

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      Além de material escritural, alguns objetos sagrados judaicos como filactérios (hebr. teffilîn, filactérios) {34}  e mezuzás (hebr. mezûzôt, batentes de porta) {35}  também foram descobertos no local e estas peças religiosas continham pequenos trechos bíblicos (Êx 12 e 13; Dt 5; 6; 10; 11 e 32), que foram escritos de memória e não copiados de alguma fonte escrita. Um fragmento de filactério foi encontrado na caverna 1, 21 na caverna 4, um na caverna 5 e um na caverna 8 (1QFil, 4QFil a , 4QFil b , 4QFil c, 4QFil d, 5QFil e 8QFil). Além de filactérios, sete fragmentos de mezuzásforam descobertos na caverna 4 e um na caverna 8 (4QMez a , 4QMez b , 4QMez c , 4QMez d , 4QMez e  8QMez). {36} 

4. Variantes Textuais

      Os manuscritos de Qumran revelam muitas variantes textuais em relação ao texto bíblico hebraico de tradição massorética que se tornou normativo para o judaísmo. As variantes textuais são tanto em relação ao texto bíblico de tradição massorética quanto em relação ao texto das demais versões bíblicas clássicas, como a Septuaginta e o Pentateuco Samaritano. Parte das variações é relacionada com alguma palavra, expressão ou trecho do texto bíblico. Abaixo, à guisa de ilustração, são apresentadas em tradução em português, algumas variantes textuais do texto de Isaías de dois manuscritos de Qumran: o 1QIs a (c. 150-100 a.C.) e o 1QIs b (c. 100-75 a.C.). As diferenças textuais desses dois manuscritos são compa-radas com o Texto Massorético, representado por dois manuscritos massoréticos, os códices de Leningrado B19a (L)(c. 1008-1009 d.C.) e Alepo (A) (c. 925-930 d.C.): {37} 

         Por meio da breve ilustração, os dois manuscritos de Qumran demonstram que havia ainda multiplicidade e fluidez do texto bíblico hebraico no período do Segundo Templo. Em alguns casos selecionados, os manuscritos de Qumran apresentam algum tipo de variação textual entre si. Por outro lado, não há nenhuma variação textual entre os códices L e A nos mesmos casos do livro de Isaías que serviram aqui de ilustração. Estes dois códices massoréticos, datados da época medieval, demonstram que o texto bíblico hebraico já tinha se tornado tanto uniforme quanto estável. {38} 

         O 4QSm a  (c. 50-25 a.C.) contém um longo segmento em 1Samuel11 que não se encontra mais no texto bíblico hebraico de tradição massorética. De acordo com os estudiosos, tal trecho era parte integrante da redação primitiva do livro de 1Samuel. O referido manuscrito de Qumran está em estado muito fragmentado e os trechos que estão entre [ ] indicam que foram restaurados pelos estudiosos{39}  Segundo os eruditos, o motivo do referido trecho de 1Samuel11 ter sido omitido pelo texto bíblico hebraico de tradição mas soréticaseria em virtude de algum erro escribal ocorrido em alguma ocasião no período do Segundo Templo.

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       4QSm a é mais um manuscrito de suma importância por revelar que o texto bíblico hebraico ainda não estava uniforme e estável no período do Segundo Templo e que havia graus de diferença textual entre os quase 212 manuscritos bíblicos encontrados em Qumran. Tais diferenças podem ser percebidas tantoem palavrasquantoem expressões,como se verificaem 1QIs a e em 1QIs b e longos trechos como se constata em 4QSm a.  

5. Conclusão: a Importância da Descoberta

       A principal importância da descoberta dos manuscritos encontrados em Qumran é relacionada com o estado textual do texto bíblico hebraico no período entre o século III a.C. e o século I d.C. Os exemplos de variantes textuais citados neste breve estudo de 1QIs , 1QIs b e 4QSm a servem como testemunho da multiplicidade e da fluidez do texto bíblico hebraico, comprovando que não havia ainda estabilidade e uniformidade, só alcançadas em período próximo ao final da época do Segundo Templo (séc. I d.C.). Provavelmente, tal aspecto dos manuscritos de Qumran seja o mais relevante para a compreensão da realidade textual da Bíblia no período que é abordado neste conciso artigo. De acordo com os eruditos, há, pelo menos, quatro tipos de texto que são representados pelos quase 212 manuscritos bíblicos de Qumran: aqueles que refletem o tipo massorético, aqueles que refletem o tipo samaritano, aqueles que refletem o tipo septuagintal e aqueles que não são alinhados a estes três tipos textuais.

       Outra característica relevante dos manuscritos de Qumran é a presença de muitos textos que não fazem parte do cânone da Bíblia Hebraica, como livros deuterocanônicos e pseudepígrafos e textos próprios da comunidade qumraniana. Além disso, é constatado o uso de traduções aramaicas e gregas de material escritural e comentários a textos bíblicos. Determinados objetos sacros judaicos, como filactérios e mezuzás, também fazem parte do acervo. Tal material,tanto em forma escritural quanto em forma de artefato,revela o uso constante dos mesmos pelas várias correntes do judaísmo da época do Segundo Templo.  

       Por fim, os manuscritos de Qumran, descobertos entre 1947 e 1956, mudaram, de maneira radical, a maneira de como o texto da Bíblia foi preservado e transmitido em período do Segundo Templo, além de tal descoberta ter desencadeado, da mesma maneira, novos estudos sobre o judaísmo da época do Segundo Templo, como, por exemplo, a vidados variados grupos judaicos atuantes na época, como os essênios, entre outros.

6. Lista das Abreviaturas dos Manuscritos de Qumran

Notas de Rodapé

   Cf. Tov, 2012, p. 29, 99, 179 e 212; Würthwein, 1995, p. 31; Deist, 1981, p. 75; Gottwald, 1988, p. 122 e 124; Pisano. 2000, p. 50; Trebolle Barrera, 1996, p. 330 e 333; Brotzman, 1994, p. 88; Mackenzie, 1984, p. 761; Francisco, 2008, p. 382. 
  
 A datação atualizada leva em consideração os manuscritos encontrados nas seguintes localidades: Hirbet Qumran (c. 250 a.C.-68 d.C.), Massada (c. 50 a.C.-30 d.C.), Wadi Murabba‘at, Nahal Hever, NahalSe’elim, NahalArugote WadiSdeir (c. 20 a.C.-115 d.C.), cf. Tov, 2012, p. 29, 30, 99, 179 e 212.

   Textos como-Massorético: um dos tipos textuais hebraicos da Bíblia surgidos no período do Segundo Templo (c. séc. VI a.C.-I d.C.), ao lado do tipo hebraico que deu origem ao Pentateuco Samaritano, ao lado do que foi a fonte hebraica para a tradução da Septuaginta e ao lado de textos livres não alinhados aos três tipos textuais mencionados. Tal grupo de textos, também denominado de Texto Protomassorético,se tornou a forma textual preferida pelos fariseus e pelos círculos de escribas do templo de Jerusalém. Posteriormente, no período medieval, deu origem ao Texto Massorético, cf. Tov, 2012, p. 108; Fischer, 2013, p. 72; Francisco, 2008, p. 383.
  
4  Vorlage(lit. algo posto em frente a, modelo): termo técnico de procedência alemã que é utilizado pelos eruditos de crítica textual para indicar a fonte original de alguma versão bíblica clássica (ex.: aVorlagehebraica da Septuaginta, a Vorlage hebraica da Vulgata, aVorlage hebraica de Áquila etc., cf. Tov, 2012, p. 423; Francisco, 2008, p. 649.
  
5  Septuaginta (lat. Setenta): versão grega do texto bíblico hebraico que surgiu a partir do século III a.C. até o século I a.C. ou até o século I d.C., em Alexandria, Egito, sendo produzida, principalmente, pela própria comunidade judaica da cidade. Serviu de base para várias versões bíblicas antigas: Vetus Latina, Copta, Etíope, Armênia, Árabe, Georgiana, Eslavônica, Siro-Héxapla e Gótica, cf. Tov, 2012, p. 422; Fischer, 2013, p. 306-307; Francisco, 2008, p. 642-643.
  
 Textos Pré-Samaritanos: o texto bíblico como testemunhado pela versão hebraica samaritana, tendo surgido antes do século II a.C. Admite somente como canônicos os cinco primeiros livros bíblicos: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Não é uma versão do Texto Protomassorético, mas é um dos tipos textuais hebraicos coexistentes com este e com o tipo textual hebraico que serviu de fonte para a Septuaginta, cf.Tov, 2012, p. 108; Fischer, 2013, p. 72; Francisco, 2008, p. 383. 
  
Cf. Tov, 2008, p. 146-149; idem, 2012, p. 108-109; Fischer, 2013, p. 72-73. 

  8  Cf. Tov, 2012, p. 110-111. 
 
 9  Cf. Tov, 2012, p. 95; Fischer, 2013, p. 61; Vermès, 1994, p. 12; Deist, 1981, p. 77; Brotzman, 1994, p. 92; Pisano, 2000, p. 50; Shanks, 1993, p. XIV e XIX; Trebolle Barrera, 1996, p. 334; Gottwald, 1988, p. 122; Mackenzie, 1984, p. 763; Francisco, 2008, p. 383. 
  
10  Tov fornece uma listagem atualizada dos manuscritos encontrados no deserto da Judeia que foram publicados e suas procedências (localidade, caverna etc.) e em quais publicações especializadas aparecem, cf. Tov, 2010, p. 6-132. Listagens mais antigas, mas parciais podem ser encontradas tanto em McCarter Jr., 1986, p. 82-86 quanto emVermès, 1994, p. 323-324.
  
11  Cf. Vermès, 1994, p. 5.
  
12  Cf. Tov, 2008, p. 131; idem, 2010, p. 111 e 113;idem, 2012, p. 94-95. 

  13  Cf. Tov, 2008, p. 129; idem, 2010, p. 111 e 113; idem, 2012, p. 29 e 97.
  
14  Pesher (hebr. sentido, explicação, significado, interpretação): vocábulo aplicado aos manuscritos de Qumran que contêm explicações ou comentários a respeito de textos bíblicos e relacionados com acontecimentos escatológicos, cf. Francisco, 2008, p. 637.
  
15  Targum (hebr. explicação, interpretação, tradução, versão): o vocábulo denota, especificamente, a versão do texto bíblico hebraico para o aramaico. Normalmente, o Targum é um tipo de versão que vai além do original hebraico e nele encontram-se comentários, ampliações, alterações, narrativas, interpretações, explicações e tradições rabínicas. Alguns tipos surgiram no século II a.C., mas os mais importantes e os mais conhecidos foram produzidos entre os séculos III e VI d.C., entre os quais destacam-se o Targum de Ônquelos e o Targum de Jônatas benUziel, os quais tornaram-se oficiais para o judaísmo, cf. Francisco, 2008, p. 644-645.
  
16  Cf. Tov, 2012, p. 96; Deist, 1981, p. 77; Brotzman, 1994, p. 89, 91 e 92; Pisano, 2000, p. 50; Gottwald, 1988, p. 98; Mackenzie, 1984, p. 763; Vermès, 1994; Silva, 2010, p. 123 e 125; Francisco, 2008, p. 387.
  
17  Cf. Frank, 1993, p. 5; Mackenzie, 1984, p. 761; Laperrousaz, 1992, p. 11; Fischer, 2013, p. 53; Machado e Funari, 2012, p. 30-31; Francisco, 2008, p. 385. 
  
18  A denominação Hirbet tem origem na palavra árabe khirbeh que significa “ruína”, cf. Laperrousaz, 1992, p. 9; Golb, 1996, p. 504; Francisco, 2008, p. 385, n. 12. O topônimo pode ser traduzido como “a ruína de Qumran”.

  19  Cf. Frank, 1993, p. 8; Laperrousaz, 1992, p. 11; Fischer, 2013, p. 53;Würthwein, 1995, p. 32; Brotzman, 1994, p. 88; Mackenzie, 1984, p. 761;Machado e Funari, 2012, p. 32; Francisco, 2008, p. 385.
  
20  Cf. Tov, 2012, p. 31 e 99, n. 168; Roberts, 1951, p. 279; Trebolle Barrera, 1996, p. 336;Fischer, 2013, p. 63; Francisco, 2008, p. 385. 

  21  Cf. Tov, 2010, p. 111 e 113; idem, 2012, p. 94-95; Würthwein, 1995, p. 31; Vermès, 1994, p. 11; Shanks, 1993, p. XIV e XVII; Laperrousaz, 1992, p. 10-21; Pisano, 2000, p. 50; Mackenzie, 1984, p. 761; Francisco, 2008, p. 385-386. 
  
22  Cf. Shanks, 1993, p. XXI; Shiffman, 1993, p. 37-52; VanderKam, 1993, p. 53-66. 

  23  Cf. Shanks, 1993, p. xx; Miller e Huber, 2006, p. 219. 
  
24  Apenas o volume Qumran Cave 4. XXVII: Textes Araméens (4Q550-575, 580-582), Deuxième Partie, DJD 37, editado por ÉmilePuech, está ainda em preparação.

  25  Cf. Tov, 2012, p. 99.
  
26  Cf. Tov, 2008, p. 147; idem, 2012, p. 108-109; Würthwein, 1995, p. 46; TrebolleBar-rera, 1996, p. 331; Francisco, 2008, p. 386.
  
27  Cf. Tov, 2012, p. 99; Francisco, 2008, p. 386.

  28  Cf. Tov, 2012, p. 108 e 188; Brotzman, 1994, p. 96; Pisano, 2000, p. 51-52; Würth-wein, 1995, p. 14, 33 e 156; Trebolle Barrera, 1996, p. 331; Deist, 1981, p. 75; Francisco, 2008, p. 386. Segundo a antiga estimativa, cerca de 60% dos manuscritos bíblicos encontrados em Qumran eram considerados próximos aos textos como-Massorético, cf. Tov, 1992, p. 115; Brotzman, 1994, p. 94. Há alguns anos, Tov chegou a rever tal porcentagem a corrigindo para cerca de 35%, cf. Tov, 2001, p. 115.  
  
29  Escrita quadrática: alfabeto hebraico que foi tomado de empréstimo do sistema alfabético aramaico, sendo empregado após o exílio babilônico (séc. VI a.C.) pelo povo judeu. Tal sistema alfabético substituiu, paulatinamente, o antigo alfabeto paleohebraico usado no período pré-exílico (c. séc. XII-VI a.C.). O nome quadrático é em virtude do formato das letras hebraicas ser similar a um quadrado. Até hoje, este abecedário é utilizado tanto na Bíblia Hebraica quanto em outros textos compostos em hebraico, cf. Francisco, 2008, p. 640. 
  
30  Escrita paleohebraica: antigo alfabeto hebraico utilizado no período do Primeiro Templo (c. séc. X-VI a.C.), muito semelhante ao alfabeto fenício. Foi substituído, gradativamente, após o exílio babilônico pelo abecedário hebraico quadrático de origem aramaica, cf. Francisco, 2008, p. 635.

  33  Os dados acima foram atualizados tendo como fonte Tov, 2010, p. 113-123; idem, 2012, p. 96-97.

  34  Pentateuco Reelaborado: manuscritos da caverna 4 de Qumran, agora considerados como manuscritos bíblicos. São edições exegéticas do Pentateuco baseadas em textos como o Texto Protomassorético (textos como-Massorético)e como o Texto Pré-Samaritano (textos como-Samaritano). Estes textos apresentam textos bíblicos fluentes, enquanto rearranjam algumas perícopes do Pentateuco, inserindo muitas pequenas modificações e acrescentando grande número de acréscimos exegéticos, cf. Tov, 2012, p. 323.

  35  Cf. Tov, 2012, p. 95, 96 e 323; Fischer, 2013, p. 61; Trebolle Barrera, 1996, p. 334; Brotzman, 1994, p. 90-92; Pisano, 2000, p. 50-51; Vermès, 1994, p. 12; Mackenzie, 1984, p. 763; Francisco, 2008, p. 387.
  
34  Filactério (lat. amuleto, preservativo): objeto sagrado judaico usado pelos homens judeus durante as orações matinais nos dias úteis da semana. Os filactérios são dois pequenos cubos confeccionados em couro, um amarrado na fronte e outro atado no braço esquerdo. Ambos contêm quatro trechos bíblicos escritos em pequenas tiras de pergaminho: Êx 13.1-10; 13.11-16; Dt 6.4-9 e 11.13-21. Os cubos possuem tiras de couro que servem para atá-los na fronte e no braço esquerdo. A utilização é decorrência de um mandamento que se encontra em Deuteronômio 6.8, cf. Francisco, 2008, p. 623.
  
35  Mezuzá (hebr. batente de porta): pequeno invólucro, geralmente retangular, fixado em posição diagonal no batente direito das portas das casas judaicas. O objeto possui uma tira de pergaminho contendo os seguintes textos bíblicos: Dt 6.4-9 e 11.13-21. A utilização deste item sacro está relacionada com a ordenança que se encontra em Deuteronômio 6.9 e tendo dois objetivos: servir de lembrete das ordenanças de Deus e servir também de símbolo de lealdade do judeu para com a nação judaica, cf. Francisco, 2008, p. 632.
  
36  Cf. Tov, 2012, p. 95; Francisco, 2008, p. 388.  

  37  Cf. Francisco, 2008, p. 141.

  38  Cf. Francisco, 2008, p. 142.

  39  Cf. Ulrich, 2010, p. 271; Tov, 2012, p. 311-312; Fischer, 2013, p. 64-65.

Referências Bibliográficas

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          Em 1947, na região do deserto da Judeia, em Israel, foram encontrados muitos manuscritos da Bíblia compostos, em hebraico, em aramaico e em grego. Muitos de tais manuscritos estavam em estado fragmentário, mas que se mostraram de valor inestimável para a história do texto bíblico. A partir desse momento, vários arqueólogos, historiadores e outros

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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