Prof. Dr. Fernando Mattiolli Vieira

Introdução

         Esta análise terá como ponto central dois hinos bastante famosos, encontrados no Evangelho de Lucas. O primeiro está registrado em Lc 1:46-55, conhecido como Magnificat. O segundo é o Benedictus, encontrado no final do mesmo capítulo de Lc, nos vv. 68-79. Visando a facilitar a compreensão ao leitor acerca das considerações aqui propostas, ambos serão dispostos abaixo. O primeiro é o Magnificat:

(...) “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada, pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem. Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia conforme prometera a nossos pais em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre!”

         O Magnificat (ou “cântico de Maria”) parece ser uma inserção forçada, acrescentada posteriormente ao texto e oriunda de fonte diferente. Quando sua relação com o contexto é analisada mais de perto, parece não haver harmonia entre o hino e o restante do relato. Caso o leitor resolvesse dar um salto do v. 45 diretamente para o v. 56, não perceberia falta alguma de conteúdo que implicasse na descrição geral. Pode-se concluir, então, que este hino foi inserido no texto recorrendo a uma fonte distinta da que o compositor utilizou para redigir o restante do capítulo. Embora a maior parte dos pesquisadores acredite que esse hino seja mesmo resultante de outra fonte, é certo que o estudo que a gerou provém de um ambiente puramente judaico. Há quem defenda, como Gourgues, que tanto o Magnificat como o Benedictus possuem traços da redação de Lucas (1995, p.53). Se aceita essa opinião, o hino seria mesmo de composição lucana, e não de outro autor posterior que fosse responsável pela interpolação. Segundo o autor citado, algumas expressões do hino fazem alusão direta a Maria, o que provaria – a despeito de o hino possuir uma pré-história ou uma história comum ao ambiente (esta segunda opção não elimina a primeira) – que o hino recebeu um “novo rosto” com a compilação de Lucas. Termos como sua serva (v. 48) e fez grandes coisas em meu favor (v. 49), se vistos como manifestações singulares de louvor, induzem o pesquisador a pensar que foram feitas modificações na estrutura do hino para que se pudesse adaptá-lo à história de Maria.

       Essa perícope lucana possui um conteúdo bastante próprio se comparado tanto às Escrituras Hebraicas como aos outros livros do Novo Testamento. Esse fato reduz as possibilidades de se encontrarem suas bases no texto bíblico. O paralelo mais próximo é encontrado nas Escrituras Hebraicas; um tipo de cântico conhecido como “aclamação” ou “oração de Ana”, mãe do profeta Samuel, registrada em 1Samuel 1:11. O texto é o que segue:

E fez um voto, dizendo: “Iahweh dos Exércitos, se quiseres dar atenção à humilhação da tua serva e te lembrares de mim, e não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho homem, então eu o consagrarei a Iahweh por todos os dias da sua vida, e a navalha não passará sobre a sua cabeça.”

         A primeira parte do Magnificat apresenta proximidade considerável com a “oração de Ana”. Vemos que a sentença olhou para a humilhação de sua serva (v. 48), encontrada no Magnificat, não apresenta grandes diferenças se comparada com a sentença se quiseres dar atenção à humilhação da tua serva, atribuída a Ana no livro de Samuel. É possível que existisse uma variedade de hinos criados em torno desta temática que conservasse esse tipo de estrutura quando recitados. Essas características encontradas em um hino do séc. I d.C. provariam que este modelo ainda era utilizado.

         É necessário considerar que os paralelos não devem restringir-se às estruturas textuais. Como sugerido acima, as temáticas compartilhadas entre diferentes textos podem também provar o uso de fontes comuns. Atualmente, tenho me dedicado mais às questões normativas existentes na literatura qumranita. Com este tipo de material, é bastante claro como algumas das normas criadas pela comunidade de Qumran recorriam a histórias do passado para encontrar justificação. Tais relatos históricos apresentam fortes traços culturais que poderiam ser revividos (ou simplesmente colocados por escrito) pelas gerações seguintes de acordo com seus interesses e possibilidades.           

            Este ponto de vista pode colaborar com os resultados neste momento. Nos tempos bíblicos, a gravidez era encarada pelas mulheres como uma bênção de Deus (Sl 127:3; 128:3). A esterilidade, por sua vez, era considerada como motivo de vergonha para uma mulher que estivesse em época produtiva. O relato das irmãs Lia e Raquel, dadas como esposas a Jacó, ilustra bem esta questão (Gn 29:30-35). Apesar de Jacó não amar Lia tanto quanto Raquel, Deus a tornou fecunda (Gn 29:31) por sua compaixão pela mulher mal-amada. O fato de Lia ter dado à luz vários filhos causou ciúmes em Raquel, que se considerava uma “mulher morta” por não poder ter filhos (Gn 30:1). Este relato extraído do livro bíblico de Gênesis serve como um bom exemplo para compreender o valor que era dado à gravidez. Infelizmente, neste momento, não podemos discutir as razões antropológicas presentes nessa sociedade que depreciava indivíduos que não se encontravam em perfeito estado físico (o que abarcará aqueles considerados “impuros” ou que não tinham corpo perfeito, como deficientes físicos, mutilados, cegos etc.). O mais importante, por sua vez, é conseguir estabelecer as relações entre o passado e o presente, os objetivos que moveram Ana a fazer sua súplica a seu Deus e Maria a agradecer-lhe por sua gravidez. A narrativa em que está inserido o Magnificat trata justamente desta temática. Isabel, mãe de João Batista, que, segundo o relato, era estéril e avançada em anos, disse depois de sua concepção: Isto fez por mim o Senhor, quando se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens! (v. 25). Esse opróbrio em que Isabel acreditava viver resume-se ao fato de ela pertencer a uma casta de mulheres desprivilegiadas moralmente; mulheres solteiras, desposadas e principalmente estéreis.

         Ainda assim, a análise feita acima não dá respostas à segunda parte do Magnificat. Os versículos 51-55 do hino, refletem uma linguagem guerreira, típica de diversas correntes de pensamento do período do Segundo Templo, a qual definitivamente não condiz com o estilo de escrita lucana. Esta parte do Magnificat apresenta proximidades com as temáticas encontradas no Benedictus que serão consideradas abaixo. Uma das hipóteses que explicam a influência de uma “literatura de resistência” em meio ao Magnificat é levantada por David Flusser, que indica uma origem qumranita para tais hinos. Analisarei sua proposta mais à frente. A princípio, faz-se importante analisar a segunda metade do hino (vv. 51-55), que abriga o que pode ser chamado de literatura de resistência.

         A linguagem guerreira adotada na segunda parte do hino utiliza o conceito de pobreza (aproximado da ideia de “humildade”), um tanto comum ao Judaísmo Antigo e fortemente destacado em Qumran. Lohfink, ao analisar como se dispõe a ideia da pobreza dentro do Magnificat, conclui que o hino

não é de forma alguma um elogio da pequenez, da modéstia, da existência na obscuridade. Pelo contrário, é a mensagem de um Deus que faz justiça aos prejudicados deste mundo e exclui aqueles que se apropriam de partes demasiadas deste mundo (2001, p.19).

         Segundo este ponto de vista, sentenças como dispersou os homens de coração orgulhoso (v. 51) e depôs poderosos de seus tronos (v. 52), colocam-se como uma mensagem para o tempo presente, e não para o porvir, mas isso totalmente aqui neste mundo (2001, p.20). Esse conteúdo “subversivo” reflete o ambiente palestino do século I d.C., com todos os seus problemas de ordem social e dominação estrangeira no período. Por volta do início do séc. II a.C., antes mesmo do nascimento da comunidade de Qumran e bem antes da formação das primeiras comunidades cristãs, dá-se o nascimento do gênero literário apocalíptico, que acaba assumindo o papel de literatura de resistência. Esta foi uma das maneiras encontradas para lutar contra o imperialismo político e militar imposto por potências estrangeiras. Utilizando uma linguagem simbólica, cuja compreensão é restrita a um número seleto de pessoas, autores pseudônimos relatavam fatos conturbados de seus dias por meio de metáforas, que tinham por objetivo se contrapor à opressão de um governo estrangeiro sobre território judaico. No Antigo Testamento, o melhor exemplo é o livro de Daniel, escrito provavelmente em meados do século II a.C., período que corresponde à forte influência selêucida e à luta dos Macabeus para rechaçá-la. No Novo Testamento, encontramos este gênero representado no livro de Apocalipse, escrito durante um contexto que possui realidade semelhante, mas contando com um opressor diferente – Roma. Em Qumran, parecia haver um consenso de que se estava vivendo os “últimos dias”, fato que motivava uma interpretação apocalíptica do tempo presente.

         O Benedictus, também conhecido como “cântico de Zacarias”, apresenta algumas semelhanças consideráveis com a linguagem utilizada no Magnificat. O texto segue na íntegra.

Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo,  e suscitou-nos uma força de salvação na casa de Davi, seu servo, como prometera desde tempos remotos pela boca de seus santos profetas, salvação que nos liberta dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam; para fazer misericórdia com nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada, do juramento que fez ao nosso pai Abraão, de nos conceder que — sem temor, libertos da mão dos nossos inimigos — nós o sirvamos com santidade e justiça, em sua presença, todos os nossos dias. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; pois irás à frente do Senhor, para preparar-lhe os caminhos, para transmitir ao seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão de seus pecados. Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, pelo qual nos visita o Astro das alturas, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, para guiar nossos passos no caminho da paz.

         Assim como o Magnificat, há dúvidas a respeito de sua composição e origem. A perícope também é oriunda de outro estudo e foi inserida ao relato possivelmente em algum momento que não o da composição original. O texto pode ser dividido em duas partes: a primeira, entre os vv. 68-76, alude ao passado israelita em que foi estabelecida a Aliança entre Deus e seu povo. A segunda parte, vv. 76-79, trata do cumprimento das expectativas messiânicas. Entretanto, a perícope inteira pode ser encaixada nos padrões militantes encontrados no Magnificat. Ambos os trechos serão considerados em conjunto logo abaixo, à luz de outro documento. Primeiramente, vale ressaltar a importante introdução encontrada no Benedictus. A expressão bendito seja o Senhor Deus de Israel (v. 68) possui um histórico interessante. Em textos como Sl 66:20 e 68:36, o termo baruc ’elohim (bendito seja Deus), prova que essa fraseologia já era anterior ao seu uso pelos cristãos. A comunidade de Qumran também pode ser considerada devedora desta estrutura fraseológica. O autor do importante texto hinário 1QH (1QHodayot) utilizou essa expressão como cabeçalho em seu hinos. Em outro texto qumranita, 4QBem-aventuranças (4Q525), podemos encontrar algo que vai além disso. O texto apresenta uma sequência de bendições que possui uma proximidade marcante com as Bem-Aventuranças encontradas em Mateus 5:3-10. Pode-se acrescentar a estes textos um que será próprio do séc. I d.C., o Shemoneh Esreh (Dezoito Bênçãos). Cada uma de suas “bênçãos” termina com a fórmula baruc ‘atah ’adonai – “Sê bendito, Senhor...” ou “Bendito sejas tu, ó Senhor”. Na benção n. 1, conhecida como ‘avot (“benção dos patriarcas”), essa fórmula é encontrada tanto em seu final quanto no início. Ela possui grande semelhança com a introdução do hino lucano. Segue minha tradução:

Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus de nossos pais (...)

Tu que te lembras das boas obras dos pais,

Tu que suscitarás um Redentor para os filhos de seus filhos (...)

              As palavras e a ordem das sentenças correspondem às do Benedictus (Bendito sejas o Senhor, nossos pais, lembras). A análise desta fórmula introdutória (e suas variantes) nos permite uma compreensão bastante interessante: ela pode ser encontrada em vários trechos das Escrituras Hebraicas, no texto qumranita de 1QH (cuja redação remete a meados do séc. II a.C, logo após a fundação da comunidade de Qumran) e em textos do séc. I d.C., como o Shemoneh Esreh e o Benedictus. Durante períodos bastante diferentes e relativamente distantes um do outro, este tipo de introdução esteve presente na estrutura de hinos judaicos. Ela pode provar que o uso corrente de tais expressões durante o séc. I d.C. é devedor a tradições mais antigas, registradas em livros conhecidos nas Escrituras Hebraicas.

        Segundo o que se pode depreender das conclusões de Gourgues, um dos pontos centrais que estabelecerão as diferenças entre o Benedictus e outros hinos do mesmo período (e do passado) refere-se às expectativas messiânicas. A segunda parte do hino é redigida sob a perspectiva de um porvir messiânico já concretizado. Os hinos anteriores às comunidades cristãs ou utilizados por outros grupos religiosos judeus expressam suas expectativas messiânicas em tempos verbais futuros (e.g., suscitarás – Shemoneh Esreh), enquanto que no Benedictus esta expectativa já se cumpriu (suscitou-nos). A compreensão do futuro/passado na expectativa messiânica israelita é chave para se entender as diferenças ideológicas de textos que passaram por adaptações. Essa versão “cristianizada” da fonte, após passar pelas mãos de Lucas (ou de outro autor cristão), nada mais é que a manifestação literária da forma judaico-cristã de se pensar utilizando padrões conhecidos. Ainda segundo Gourgues, enquanto o primeiro painel (vv. 68-75) recorre a uma ‘formulação judaica’ toda inspirada no Antigo Testamento, o segundo (vv. 76-79) emprega uma formulação cristã ou cristianizada (1995, p. 40, grifos meus). Este resumo, apesar de poder ser questionado, demonstra bem o que pensam aqueles que procuram encontrar a origem do Benedictus.

        Alguns estudiosos já propuseram que tanto o Magnificat quanto o Benedictus são hinos de Isabel, mãe de João Batista. Segundo esta hipótese, a origem destes dois hinos pertencia aos círculos religiosos de Batista. Essa opinião também foi defendida por David Flusser, sobretudo depois de sua leitura de um hino presente no Pergaminho da Guerra (1QM). Segundo ele, existe de fato um hino guerreiro essênio do tipo que está por trás do Magnificat e do Benedictus (2000, p. 153).

          Vimos acima que ambos os hinos lucanos abarcam com conteúdo militante. Uma leitura atenta dos relatos bíblicos nos apresenta um Batista com alto grau de militância. Seguindo esta leitura, Batista não teria sido considerado subversivo por castas superiores apenas por seus questionamentos à conduta de Herodes Antipas, que tinha se casado com a mulher do próprio irmão (Mt 14:3-4; Lc 3:19-20). Pelo contrário, ele parece ter tido um papel bem mais “ativo” em seus dias; presumindo-se, portanto, que sua condenação tenha sido ocasionada por apenas um de vários motivos não relatados ou que simplesmente se tenha relatado um entre todos. Os dois hinos, que segundo Flusser teriam sido retirados de uma espécie de evangelho do nascimento de João Batista (2000, p. 150), eram na verdade a adaptação de um ou mais hinos utilizados por Batista e/ou seus seguidores. Os ideais guerreiros, patrióticos e até certo ponto revolucionários, constituem uma mensagem própria dos círculos de Batista, cujos antecessores Flusser localiza entre os membros da comunidade de Qumran.

         O hino a que Flusser se refere está registrado em um texto escatológico que abrange vários estilos literários. Ele destaca figuras messiânicas, grupos que atuarão no “fim dos tempos”, e o papel da comunidade na “guerra final” – entre os filhos da Luz e os filhos das Trevas. O hino encontra-se em 1QM 14:4-13:

1QM 14:4-13

Bendição e aliança:

4-5. Bem-aventurado (Bendito – trad. Martínez) seja o Deus de Israel, que preserva misericórdia para Sua aliança e os tempos marcados (predestinados) de salvação para o povo de Sua redenção.

Livramento dos inimigos:

5. Ele chamou os errantes para façanhas poderosas. Ele reuniu uma multidão de nações para a destruição total que não deixará sequer um remanescente.

Fortes e fracos:

6-8. Ele dá força àqueles com joelhos fracos para se manterem firmes (...). Nenhum de seus homens poderosos será capaz de ficar de pé.

11. Mas Tu ergueste os caídos com Tua força. Tu derrubarás os altos de estatura e humilharás os arrogantes.

11-12. Seus homens poderosos não terão ninguém para os salvar e seus homens velozes não terão lugar para onde fugir. Tu trarás desprezo sobre seus nobres (...).

Misericórdia e aliança:

8-9. Ó Deus de misericórdias, que preservas a aliança feita com nossos pais; em todas as nossas gerações Tu fizeste maravilhosas tuas misericórdias.

Exaltação:

12-13. Mas nós o povo de Tua santidade, louvaremos teu nome por causa das obras de Tua verdade. Nós exaltaremos para sempre Teus atos poderosos (...).

Lucas 1

 

68. Bendito o Senhor Deus de Israel (...).

70. (...) como prometera pela boca dos santos profetas, desde tempos remotos (...).

51. dissipou os soberbos (...).

71. (...) salvação que nos liberta dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam (...).

 

52a. Depôs poderosos de seus tronos,

52b. e a humildes exaltou.

51. Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso.

72-73. (...) para fazer misericórdia com nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada, do juramento que fez ao nosso pai Abraão (...).

74-75. (...) nós o sirvamos com santidade e justiça, em sua presença, todos os nossos dias.

         O hino precede o Magnificat e o Benedictus em diversas temáticas e, até certo ponto, na estrutura. Com palavras não tão díspares, pode-se perceber onde se encontram as sentenças-chave que teriam sido utilizadas pelo autor cristão em sua redação.

         Outra possibilidade que deve ser considerada é a de que tanto o hino do Pergaminho da Guerra quanto os hinos lucanos tivessem como inspiração uma fonte mais antiga, ou seja, outro hino que tivesse todos estes elementos principais e que ainda não tivesse recebido os acréscimos tanto do redator qumranita quanto do cristão, sendo assim o “original” de todos. Seguindo esta ideia, Flusser faz uma tentativa para chegar a esse hino original, somando as temáticas principais existentes nos três hinos e dispondo-as em provável ordem. O texto alcançado foi:

Bem-aventurado seja o Deus de Israel, Que preserva misericórdia para Sua aliança (...) (e) salvação para o povo de Sua redenção. Ele chamou os errantes para poderosas bravuras. Ele reuniu uma multidão de nações para a destruição total (...). Ele exaltará os pusilânimes (...) Ele ensinará a arte da guerra àqueles com mãos deficientes. Ele dá força àqueles com joelhos fracos para se manterem firmes e fortalecerá os ombros dos feridos. Pelos pobres de espírito (...) de coração duro. Pelos inocentes no proceder todas as nações más chegarão ao fim. Nenhum de seus homens poderosos será capaz de ficar de pé. Mas nós (...) (abençoaremos) Teu nome, ó Deus de misericórdias, Que preserva a aliança feita com nossos pais (...). Mas tu ergueste o caído por Tua força, Tu derrubarás os altos de estatura [e humilharás o soberbo]. Seus homens poderosos não terão alguém para os salvar e seus homens velozes não terão lugar para onde fugir. Tu trarás desprezo sobre seus nobres. Mas nós, o povo de Tua santidade, louvaremos Teu nome (...) (e) exaltaremos Teus atos poderosos para sempre (2000, p.159).

        Essa reconstrução com os elementos principais se coloca como uma alternativa bastante convincente para compreender a pré-história do Magnificat e do Benedictus. Por mais hipotética que seja (uma vez que não existem fontes que possuam hinos similares mais antigos que estes), essa forma de reconstrução é a mais cabível de crédito por ser um método bastante confiável utilizado pela maioria dos historiadores bíblicos.

              Assumindo que havia um texto de natureza militante anterior a 1QM e aos hinos lucanos, não se pode desconsiderar que este possa ter sido o texto que serviu de base para Lucas ou o autor cristão que fez os acréscimos. Ainda assim, a hipótese de que 1QM 14:4-13 tenha sido o texto que influenciou tal autor é muito convincente. O que reforça essa conclusão é o fato de tanto o hino de 1QM quanto os hinos da Natividade lucanos destacarem elementos nacionalistas e até revolucionários – elementos próprios da ideologia apocalíptica essênia. Ou seja, mesmo tendo existido uma fonte original, ela teria sido essênia – o que por fim, não mudaria muito a ordem das coisas. Uma fonte essênia teria sido utilizada por outro autor essênio, sendo agregada posteriormente ao texto de 1QM.

          Outro ponto importante é saber como este hino chegou até o redator cristão. Como dito acima, o Magnificat e o Benedictus são atribuídos por alguns estudiosos a Isabel e Zacarias, pais de João Batista. Por este viés, estes hinos teriam tido sua recopilação final – ou seja, teriam se “transformado” em Magnificat e Benedictus – pelos seguidores de João Batista, considerado um dissidente essênio que tinha acesso ao rol dos livros qumranitas e que difundiu algumas de suas ideologias (políticas e libertárias) a “todo o Israel” sob uma ótica que defendia a salvação mais abrangente e não somente para um grupo fechado, no caso, seus ex-companheiros essênios. Essa é a opinião de Flusser, que pode assim ser resumida:

A afinidade entre os dois hinos e a oração de ação de graças do Pergaminho da Guerra essênio forçou-nos a sugerir que o Magnificat e o Benedictus foram compostos por discípulos de João. Como João Batista pertencia num sentido mais amplo ao movimento essênio, a conexão entre os dois hinos compostos pelos discípulos de João e uma oração essênia não é nem um pouco surpreendente (2000, p. 162, grifo meu).

         A contribuição de Flusser, é, deveras, imprescindível para elucidar como eram possíveis e fartos os casos de adaptação, apropriação e trocas entre grupos do início de nossa era.

4. Bem-aventurado seja o Deus de Israel

    Que preserva misericórdia para Sua aliança

    tempos marcados (predestinados) de salvação

    para o povo de Sua redenção

5. Ele chamou os errantes para façanhas poderosas.

    Ele reuniu uma multidão de nações para a destruição

    Total que não deixará sequer um remanescente.

6. Pela justiça Ele exaltará o pusilânime e

    abrirá a boca do mudo para alegre

    louvar os atos poderosos de Deus.

    Ele ensinará a arte da guerra para aqueles com mãos

deficientes. 

7. Ele dá força àqueles com joelhos fracos para

    se manterem firmes e fortalecerá

    os ombros do ferido.

    Pelo pobre de espírito (...) de coração duro.

    Pelos inocentes no proceder todas as nações más

    chegarão ao fim.

8. Nenhum de seus homens poderosos será capaz de ficar de pé.

    Mas nós, os remanescentes de Teu povo, abençoaremos

    Teu nome, ó Deus de misericórdias, que preservas

    a aliança feita com nossos pais.

9. Em todas as nossas gerações Tu fizeste

    Maravilhosas Tuas misericórdias aos remanescentes da

    nação de Israel, mesmo durante o

    domínio de Belial.

    Pois não fomos levados para longe de Tua aliança

    pelos mistérios de seu ódio.

10. Tu repreendeste seus espíritos destrutivos e

      Os expulsastes de nós. Tu protegeste

Conclusões

Notas de Rodapé

  1  Utilizo a expressão “escritos originários” a fim de ressaltar o caráter não canônico tanto das fontes primárias (30-70 d.C.) quanto secundárias (70-135). 

  2  O trabalho mais conhecido nessa linha foi As intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto (do original em inglês The Dead Sea Scroll Deception [1991]). Os autores Richard Baigent e Michael Leigh, dois jornalistas que já escreveram sobre temas completamente distintos, reuniram as teses mais criticadas até aquele momento e as apresentaram como uma denúncia de que a Igreja católica estava protegendo um “conteúdo proibido”, que era restrito apenas às agências e aos pesquisadores engajados com a Igreja.

   Opto, aqui, por utilizar o termo Escrituras ao invés de Antigo Testamento. Este é um conceito oriundo de uma construção cristã aviltada, que tem sua base conceitual originada com o apóstolo Paulo (2Cor 3:14). Os livros da tradição judaica eram chamados na Judeia apenas por “Escrituras”, como visto em algumas passagens dos escritos cristãos (Mt 21:42; Mc 12:24).

  4  Para as citações e abreviações dos textos cristãos, utilizo a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulinas, 1995).
   A expressão filho de Deus pode ser encontrada em: Mt 2:15; 3:17; 4:3, 6; 8:29; 14:33; 16:16; 17:5; 26:63; 27:40, 43, 54; Mc 1:1,11; 3:11; 5:7; 15:39; Lc 1:32, 35; 3:22; 4:3, 9, 41; 8:28; 9:35; 22:70; Jo 1:18,34,49; 3:18; 5:25; (9:35); 10:36; 11:4,27; 19:7; 20:31; At: 8:37; 9:20; 13:33; Rm 1:3-4, 9; 5:10; 8:3, 29, 32; 1Cor 1:9; 2Cor 1:19; Gl 1:16; 2:20; 4:4, 6; Ef 4:13; 1Ts 1:10; He 1:5; 4:14; 5:5; 6:6; 7:3; 10:29; 2Pd 1:17; 1Jo 1:3,7, 8; 3:23; 4:9,10,15; 5:5,9,10,11,12,13,20; 2Jo 3; Ap 2:18.

  6  Para as citações dos manuscritos de Qumran, utilizo GARCIA MARTÍNEZ, Florentino. Textos de Qumran, Edição Fiel e Completa dos Documentos do Mar Morto. Trad. Valmor da Silva. Petrópolis: Vozes, 1995. As referências a esses documentos não serão abreviadas.

   Essa ocorrência no texto lucano é um tanto enigmática. Para o autor, os filhos da luz são um grupo rival aos seguidores de Jesus, chamados de “filhos deste século” (huioi tou aionos). Há pesquisadores que acreditam que Lucas fez uma crítica a um grupo essênio, talvez o que habitou em Qumran, cujos manuscritos atestam o uso extensivo do nome filhos da luz (Flusser, Van de Standt, 2002: 188).

  8  Os manuscritos de Qumran pertenceram a uma comunidade apocalíptica, que se originou em um contexto de fortes tensões políticas, sociais e religiosas. Os pactuantes acreditavam que teriam uma participação efetiva no “fim dos tempos”. Eles eram os filhos da luz, que deveriam lutar contra os filhos da escuridão, que eram aqueles que não haviam aceitado a mensagem divina do grupo (Schffman, 2009: 174).

   Vale lembrar que a expressão “filhos das trevas” (benei hosek), encontrada uma única vez em 1QRegra da Comunidade (1:10) não está presente nas tradições cristãs, sendo a expressão “filho da perdição” (huios tes apoleias), atestada em Jo 17:12, a mais próxima daquele termo.

  10  Segundo o Dicionário ilustrado das Religiões (2001), o gnosticismo (do grego gnôsis: conhecimento) foi uma corrente espiritual contemporânea das primeiras comunidades cristãs. Os adeptos do gnosticismo procuravam dar respostas à pergunta “como apareceu o mal no mundo”. Pregavam que o homem não era pecador, mas que dentro dele travava-se uma luta perpétua entre bem e mal. O objetivo do gnosticismo era identificar essa luta através do conhecimento e assim alcançar a redenção.

  11  Considero a divisão do corpus paulino com base na conclusão do erudito bíblico Michael Goulder (1997: 515): 1Ts, 1Cor, Gl, 2Cor, Rm, Fm e Fl, provavelmente nessa ordem, são autenticamente paulinas; 1Tm, 2Tm, Tt e Hb são pseudônimas; e 2Ts, Cl e Ef são controversas, principalmente a última.

  12  Deve-se levar em consideração o problema em torno da autoria dessa perícope. Ela parece ser uma interpolação promovida posteriormente por outro autor que não Paulo. Sua inserção foi feita provavelmente por alguém pertencente a círculo paulino já que suas ideias são harmônicas às conhecidas nas epístolas paulinas.

  13  Neste hino sigo a tradução e a disposição em estrofes proposta por Norbert Lohfink (2001: 55-56).

  14  Compare com os hinos encontrados em 1QS 11:9-12 e 1QH 4:30-38.

  15  Entre os manuscritos descobertos em Qumran, havia várias cópias de textos com conteúdo normativo, com leis destinadas a regrar o comportamento dos indivíduos do grupo. O mais completo texto normativo é encontrado em 1QS 6:24-7:25, com um total de 25 leis que previam diferentes penalidades. A não observância tanto das leis comunais quanto das leis da tradição judaica resultava em punições.

  16  Jesus havia sido batizado por João, o que do ponto de vista religioso possui um simbolismo muito importante (Mt 3:13-17; Mc 1:9-11; Lc 3:21-22).

 

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